Pai

Eu era bem pequena e minha mãe já nos colocava sentadas, eu e minhas duas irmãs, na escada da varanda lá de casa, esperando papai chegar.

E quando ele chegava, cansado do trabalho, passos lentos, sorriso no rosto, essa era a hora do abraço apertado, de rir junto, de andar de cavalinho.

Ele era uma pessoa discreta, falava pouco, mas quando falava era para dizer coisas boas. Carinhoso ao extremo, como deveriam ser todos os pais.

Jeito de coração de manteiga, me ensinou a desenhar, a ampliar figuras, a gostar de lápis de cor, guache e afins.

Eu sempre me sentava ao lado dele nas horas vagas ou nos domingos, desenhando.

Ele estava lá me dando força e segurando minha bicicleta, nas minhas primeiras pedaladas.

Toda vida foi assim, ele sempre estava lá, me orientando. Lições de amor, de confiança adquirida.

Dele herdei o jeito moleque, caprichoso, organizado, paciente e impaciente, o jeito de querer fazer tudo perfeito, as letras redondas nos cadernos… todo aprendizado que vivi foi inspirado nele. Falar do meu pai é difícil.

Dele guardo as melhores lembranças dos melhores passeios, das melhores férias.

Ele sempre foi presente na nossa vida, na nossa educação, na nossa família.

Eu gostaria que todas as pessoas tivessem um pai tão perfeito como eu tive.

Meu porto seguro.

Carinho, amor, razão, dignidade, felicidade, tudo se mistura ao nome dele.

Par perfeito na minha valsa de 15 anos, valsando lentamente, com medo de pisar no meu pé.

Aquele pai que me cobria à noite, me pegava no colo, fazia cócegas nos meus pés, penteava meus cabelos quando estavam desalinhados com um pente pequeno de osso.

Aquele pai que brincava de karatê comigo, me chamava para chupar laranja sentada na cadeira da varanda, vendo a chuva passar.

Estar ao lado dele era simplesmente delicioso!

Pai abrigo, conforto, amigo; pai, que na sua simplicidade me ensinou lições de caráter, humildade, respeito e fé.

Que me ensinou a querer somente o necessário.

Que me ensinou a ser especial, me fazendo sentir-me especial por diversas vezes.

Em certos momentos me pego pensando: quem seria eu se não fosse ele?

Ele agora vive no mundo invisível de Deus.

As melhores lembranças ainda serão dele e as carrego comigo, numa pequena caixa que chamam coração.

Pela vida feliz que tive ao lado dele. Pela pessoa íntegra que me tornei. Gratidão, meu pai. Sempre!

Patrícia Cadaval
Revista Linha Direta